Capítulo 2 – Espíritos amam?
Amanhecera, se escutava os empregados se levantando e se preparando para outro dia de trabalho. Mesmo após saberem da morte de seu tão adorado patrão, eles sabiam que o mesmo iria querer que as atividades do dia fossem feitas. Violet acabara de acorda, ainda sonolenta ouviu alguém bater na porta, era a governanta Sandra. A garota tinha lhe dado o consentimento para adentrar no quarto arrumado as pressas para a chegada inesperada da jovem.
Com o desjejum de Violet numa bandeja de bronze em mãos, Sandra entregou o chá da jovem e foi preparar a roupa e a água do banho da mesma. Violet comia devagar, enquanto olhava a mulher que aparentava ter uns 30 anos, preparando a água do seu banho. Com tudo pronto e Violet alimentada, a governanta disse para a jovem o que o avô da mesma fazia todas as manhãs.
Sandra iria ser a governanta da casa enquanto Violet não fizesse seus 18 anos, era uma mulher magra e alta, com um sorriso gentil e alegre por conta das pequenas covinhas que nasciam em suas bochechas, que combinava com os brilhantes olhos cor de âmbar, o cabelo preto estava bem preso no coque na altura da nuca da mulher. Violet viu que tudo estava bem nas mãos habilidosas de Sandra, resolveu caminhar na propriedade, pediu para que buscassem o corcel que o avô tinha achado nos campos e tinha lhe dado de presente. Com o animal pronto para a montaria, perguntaram se a nova dona da casa queria que alguém fosse com ela. Ela negou o pedido para não tirar ninguém das suas tarefas.
Assim que soltaram as rédeas do animal para Violet monta–lo sozinha, o cavalo saiu em disparada para os campos de pastos dos outros cavalos que continham. O cavalo era veloz, parecia voar sobre o campo, Violet deu para o animal o nome de Spirit, pois para ela, ele era um espírito que corria livremente pelos campos. Um cavalo que só permitia ela montar, mais ninguém. Chegado a uma enorme colina, Violet deixou Spirit debaixo de uma macieira com as rédeas soltas, ela sabia que o corcel não iria embora de lá sem ela.
Sentou–se na sombra da árvore e via o animal comer as maçãs caídas no chão. O vento batia calmamente no rosto pálido de Violet, quando a mesma olhou para o lado viu o cavalo lhe oferecendo uma maçã que tinha acabado de cair. Ela deu uma curta risada e pegou a maçã, por fim ofereceu–a para o cavalo que mesmo aparentando saber que Violet estava lhe devolvendo o presente não recusou.
–Tu realmente gostas de maçãs não é Spirit?–O cavalo deu um relinchar que a garota considerou um sim. Riu novamente e se deitou na grama fresca. –Sabes Spirit, eu gostava de vir a esta macieira com meu avô e ficamos lendo, desenhando e tudo mais… Era tudo tão bom quando ele estava vivo, o triste é que ele se fora no dia do meu aniversário… Ah, olhe só a hora! Temos que ir rapaz! –Pegou as rédeas do animal e subiu no mesmo às pressas para chegar a casa na hora do almoço.
Chegou à velha casa sendo cumprimentada por todos os empregados, sendo chamada de “Senhorita Dawson”, sentia vergonha de ser chamada assim e pediu a todos que a chamassem apenas de Violet. Os preparativos do almoço já tinham sidos terminados, Violet se sentou e experimentou a comida feita com o carinho pelos cozinheiros. Dizendo que estava delicioso, a jovem comeu tudo sem pestanejar. Satisfeita, disse que iria se retirar mais um passeio agora um depois do almoço.
Dessa vez, Violet caminhava por perto da casa vendo o que tinha por aquelas bandas. Achou na sua caminhada um pequeno canteiro, com varias violetas, seu avô realmente gostava dessas flores, pois lembravam a sua querida Violet. Achou um canil onde ficavam os cães que faziam a guarda do local e ainda os cães de caça, que ficavam em locais separados. Um dos cães simpatizou–se com Violet, ela deu um sorriso e o cão lambeu a mão da mesma.
Continuando a caminhada, encontrou o balanço que o avô tinha feito para ela. Estava meio acabado, mas pensou ela, que ainda aguenta o peso da mesma, se sentou no velho balanço e se balançou um pouco. Enquanto se balançava, vinha à mente lembranças de quando ela era pequena e vinha para a casa do avô, ele ficava empurrando Violet enquanto a escutava rir alegremente. A jovem sente falta desses tempos, que ela mesma sabe que não iram mais voltar…
Estava tão distraída com suas lembranças que não notou a corda do balanço se desfazendo aos poucos, a corda finalmente se partiu, Violet ia de encontro ao chão se não tivesse aparecido alguém para segurar a frágil garota. Violet tinha fechado os olhos para não ver sua suposta queda, ela não sentiu o impacto do chão em suas costas resolveu abrir os olhos devagar e viu um rapaz, olhos negros como a noite, cabelos louros tão lisos que lhe faziam inveja, pele alva levemente corada.
Violet se sentia encantada pelo rapaz que aparentava ter sua idade se não um pouco mais velho, ele a ajudou a se por em pé e ajudou a mesma a limpar as roupas. Violet não sabia quem era o rapaz nunca o tinha visto na casa em toda sua vida, queria saber quem era ele, mas na hora que tinha tomado coragem para perguntar o nome dele o rapaz arrumou uma das mechas de cabelo de Violet, sorriu e por fim foi embora. Deixando Violet curiosa para saber quem era.
–Quem será você? –Disse ela para si mesma, torcendo para que ele tivesse ouvido. O rapaz se virou e olhou para os olhos de Violet e por fim disse.
–Teus olhos são tão belos senhorita… –Só isso mais nada, Violet queria saber algo mais sobre ele, quem era, se era filho de algum empregado e foi correndo atrás de Sandra.
–SANDRA! SANDRA! –Disse a menina aos berros após achar a governanta.
–O que foi Violet? Para que estes berros? –Violet contou para ela o que aconteceu, Sandra notou a sutil curiosidade de Violet sobre o rapaz e logo se lembrou de quem era.
–Você sabe quem é Sandra?
–Agora me lembro de quem é! A senhorita está a falar de Thomas, o filho do novo tratador do canil. –Sandra viu os olhos violetas brilharem alegres e soltou uma pequena risada.
–Qual o nome do tratador dos cães Sandra?
–Ele se chama Mathias, se não me engano… Não me diga que a senhorita vai atrás do Thomas? –Violet sentiu o rosto esquentar, Sandra deu uma leve risada do rosto rubro da nova senhora da casa.
–Eu… Só quero agradecer devidamente por ele ter evitado minha queda do velho balanço… Só isso Sandra… –Por fim, Violet saiu correndo atrás do pai de Thomas deixando Sandra rindo.
–Com licença, o senhor é o novo tratador dos cães? –Disse Violet após chegar ao canil. Um homem alto de cabelos louros e olhos verdes de pele alva respondeu.
–Ah, sim senhorita! Chamo-me Mathias Collins, o novo tratador do canil. A senhorita que dar uma olhada nos cães?
–Sim claro! –Violet se aproximou do canil e o mesmo cão que tinha lambido sua mão veio ver ela de perto.
–Pelo jeito Jack gostou da senhorita. Ele é um ótimo cão de guarda.
–Então seu nome é Jack? Adorei seu nome! Posso ficar com ele? –Mathias deu uma leve risada com o pedido da sua nova patroa.
–Senhorita, o cão é teu desde o dia que o seu avô colocou vosso nome na posse dessas terras.
–Poderia tira–ló dai Mathias?
–Sim senhorita só um segundo, não quero que os outros cães saiam também. –Mathias retirou o cão de junto dos outros e imediatamente o cão veio até Violet, que o acariciou meio receosa.
–Você é tão bonzinho… Posso ficar como cão de companhia?
–Isso a senhorita quem decide. –Violet se alegrou, agora teria um companheiro para suas andanças.
–Espero que não o ofenda com minha pergunta Mathias, mas o senhor teria um filho?
–Sua pergunta não me ofende Senhorita Dawson, meu filho se chama Thomas. Às vezes ele vem comigo tratar dos cães, mas hoje eu não o vi desde a hora que cheguei para trabalhar.
–Entendo… Eu queria agradecer a ele, por ter evitado um acidente que eu ia sofrendo.
–Hum, se a senhorita quiser eu repasso o recado para meu filho dizendo que a senhorita deseja falar com ele.
–Isso seria um grande favor! Muito obrigada Mathias! Até mais tarde e continue com o excelente trabalho. Vamos Jack, quero cavalgar antes da janta ser servida! –Disse Violet se retirando e indo em direção ao estábulo.
Assim que Violet chegou ao estábulo, um dos tratadores dos cavalos disse que tinha chegado um alazão negro. Violet o acompanhou até o cercado de adestramento, podia se ver o quão trabalhoso seria o animal, o alazão era visivelmente irritado. Nenhum dos tratadores foi até o animal por ordem de Violet, ela não queria que ninguém se machucasse com aquele animal tão enfurecido.
A ordem era de, deixar o cavalo se adaptar ao novo local enquanto esperavam ele se acalmar deveriam o alimentar e dar água para ele. Violet voltou de seu passeio, ainda montada em Spirit foi ver o cavalo, ela via que o alazão não gostava do espaço em que se encontrava, era apertado demais para ele. Violet decidiu arriscar e entrou no cercado, um dos empregados viu de longe a loucura da menina e foi correndo chamar Sandra. Quando chegaram à menina estava se aproximando do animal enfurecido.
–Calmo rapaz, eu sei que estas irritado por causa do pequeno espaço… Mas se for bonzinho, ei de levar-te para o campo onde poderás correr com os outros… –Todos ficaram apreensivos com a loucura da menina.
–Violet, saia agora!! –Berrava Sandra, mas a menina não deu ouvidos. Em meio ao tumulto, Violet não notou, mas Thomas estava ali observando ela.
–Calmo rapaz… Se eu cantar tu se acalma? Que tal uma canção de ninar? –O cavalo ficou menos agitado, então resolveu cantar, mas não tinha uma música em mente. Inventou uma música qualquer e se dispôs a cantar. O alazão num instante se acalmou.
Violet cantava tranquilamente tentando repassar essa tranquilidade para o animal, todos ali presentes escutavam a canção da menina e diziam a mesma coisa: “Como alguém tão pequeno e frágil poderia cantar dessa maneira?”. Todos sabiam da saúde e corpo frágil da menina e por isso se preocupavam com ela. Violet não tinha notado sua suposta plateia, pois tentava acalmar o alazão, por descuido da menina o animal ia lhe dando um coice se não fosse por Thomas por ter a tirado do caminho se jogando na frente da mesma.
Violet ficou estática, era a segunda vez que o rapaz a salvara. Viu que a cabeça do mesmo sangrava um pouco, foi o retirando do local às pressas enquanto o cão ficou distraindo o cavalo para que sua dona saísse de lá com o rapaz ferido na cabeça. Todos foram ajudar o rapaz, o levaram para dentro do casarão e Violet ficou ali, em frente ao cercado chorando dessa vez ele tinha se machucado e isso a deixava magoada.
Foi andando devagar atrás de Mathias para pedir perdão por ter feito o filho do mesmo se machucar, mas o bondoso homem disse que não fora nada, era um corte feito durante a queda de ambos. Violet, de coração mais tranquilo pediu para ver o rapaz mesmo sabendo que ele supostamente estava bem, ainda queria pedir perdão.
–O–olá… Disseram que você estava bem… –Disse a mesma totalmente envergonhada por estar sozinha no quarto do rapaz. Thomas ajeitou-se na cama e se sentou.
–Estou melhor por saber que não se feriste, Senhorita Dawson.
–Por favor, me chame de Violet… Espero que o ferimento não tenha sido feito pelo cavalo… –O rapaz riu da maneira desengonçada da menina de falar.
–Não, não foste o cavalo senhorita… Que dizer, Violet… Não foi o cavalo… Na queda bati a cabeça numa pedra que tinha perto de mim…
–Entendo… Espero que melhore logo! –Disse ela animada, o rapaz novamente riu e a chamou para mais perto da cama.
–Poderia chegar mais perto Violet? –A menina chegou mais perto da cama, mas com toda a cautela, o cachorro da mesma estava parado na porta vendo os movimentos da dona envergonhada. Por fim, se sentou na beirada da cama, mantendo ainda certa distancia do rapaz.
–O que foi? Está precisando de algo? –Disse Violet preocupada, o rapaz fez um sinal de positivo com a cabeça.
–Sim, eu… Realmente queria poder dormir, mas não consigo… Minha cabeça dói… –Violet sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
–Sinto muito… É tudo a minha culpa, se eu não tivesse entrado naquele cercado você não estaria machucado… –Thomas, com dó de ver aqueles belos olhos chorando enxugou as lágrimas que caiam e sorriu para a mesma.
–Você não tem culpa Violet… Poderia me fazer um favor? –A menina fungou um pouco e disse que iria fazer, o rapaz sorriu.
–Do que precisa?
–Poderia fazer carinho na minha cabeça? Isso poderia me ajudar a dormir…
–Sim claro! –Sem pestanejar a menina disse que iria ajudar, mas se surpreendeu quando o rapaz deitou a cabeça nas pernas dela.
–Minha mãe fazia isso… Deixava-me deitar a cabeça nas pernas dela e fazia carinho até eu dormir… Poderias cantar também? –Violet sorriu por se sentir útil para o rapaz, logo começou a cantar.
Após um tempo, o rapaz tinha voltado para suas obrigações com o pai, alegando estar melhor e pronto para o serviço. Já tinha se escurecido, o jantar já tinha sido servido, Violet aproveitava o tempo antes de dormir para ler na sala, Sandra estava lhe fazendo companhia enquanto bordava. Thomas apareceu cutucando Sandra, falando em seu ouvido que queria falar com a menina, a governanta disse que iria buscar um chá. Thomas foi falar com a jovem patroa.
–Olá… Violet.– Disse o louro com um sorriso simples no rosto, a menina levará um pequeno susto mas cumprimentou o rapaz de volta.
–Oh, olá Thomas. Como está sua cabeça? Ainda dói?
–Estou bem Violet… Se não fosse por ti, eu não teria conseguido dormir… – A menina suspirou aliviada e sorriu.
–Ah, que bom… Fiquei preocupada contigo, sentia que era minha culpa por ter ti deixado machucado.
–Ei de estar muito bem, poderei trabalhar normalmente.
–Entendo… –Disse a menina, ambos pensaram que a conversa tinha se acabado naquele momento. Até que Jack pega um dos calçados de Violet e sai correndo pela sala, Thomas fora ajudar Violet a recuperar o sapato.
Passaram um tempo ‘‘caçando’’ o cão, até finalmente conseguirem pegar o calçado da mesma, Thomas ajudou Violet a calçar o sapato. Passou só alguns minutos e Sandra voltou com o chá, Violet não se importou com a demora da governanta estava distraída com o belo rapaz que estava ao seu lado a fazendo rir de histórias tão tolas que eram lhe engraçadas.
Quando o velho relógio bateu as nove, a mesma foi se retirando para dormir. Thomas deu boa noite e beijou a mão de Violet o que a deixou com o rosto totalmente rubro. Subiu as escadas sendo acompanhada por Jack e sendo seguida pelos olhos astutos de Thomas, ao trancar a porta do quarto suspirou fundo.
–Jack… Será que, espíritos como eu amam? Não sei se amo ele, mas ele faz meu coração bater loucamente! –Disse ela sorrindo. Trocou de roupa e foi dormi, e acabara por sonhar com o rapaz que, de repente, mexia tanto com ela.
Na manhã seguinte, Violet recebeu uma carta dizendo que o pai dela iria visita–lá por um momento se encontrou feliz por rever o pai, mas ao terminar de ler a carta o sorriso desapareceu. Sandra perguntou o porquê de a menina estar triste daquela maneira, Violet disse que a mãe viria junto com o pai e com eles, o suposto noivo dela…