Eu terminava de fazer mais um rabisco no meu caderno, os traços tomavam a forma de um casal sentado num banco de praça. Não dei rostos e nem cores para eles agora, era apenas mais um rabisco que eu fazia na minha busca de inspiração. É triste quando você quer fazer algo e não sabe o que fazer realmente, ser artista e não ter inspiração é algo meio cômico se você não for do meio. Fechei o caderno e me levantei daquele banco, onde eu passei dez minutos observando um outro banco vazio até a chegada do casal a cinco minutos. Resolvi andar mais um pouco por aquele parque, vi algumas pessoas fazendo piqueniques, resolvi parar um pouco e desenha-los. Sai depois de um tempo e encontrei uma flor, sozinha num canto meio escuro, resolvi desenha-la também e depois que acabei com os rabiscos fui embora. Um casal passava e o homem empurrava um carrinho de bebê, eu encostei numa arvore e tentei desenha-los, assim que terminei de rabiscar fechei o caderno e guardei. Agora sim iria para casa, eu tinha passado o dia inteiro naquele parque atrás de inspiração e quando cheguei em casa olhei para todos os desenhos que fiz…
–Não, não, não, não… Que droga! –Joguei o caderno para longe de mim, andei em círculos bufando com raiva. –Mas que droga! Isso parecia uma boa ideia, por que não parece mais? Por que parece algo comum demais? MAS QUE DROGA!
–Ei calma! O que ta acontecendo? –Minha namorada entrou no meu pequeno ateliê, viu meu caderno no chão e olhou para mim. –Problemas de inspiração de novo?
–Olha isso, tudo parecia uma boa ideia e agora não é mais! Pareciam que fariam um bom quadro, mas agora… –Não consegui terminar minha frase, estava irritado demais. Minha namorada deixou o caderno em cima de uma pequena mesa e veio até mim, pegou minhas mãos e as levou até o peito, eu podia sentir seu coração batendo.
–Está tudo bem ficar sem inspiração… Acontece, você sabe disso… –Eu respirei fundo, ela tocou meu ombro e deu leves tapinhas. –Vem, vamos tomar um bom café e conversar bobagem.
Ela me arrastou até cozinha e me fez preparar o café enquanto me observava, comentava algumas bobagens, como foi o dia dela no trabalho, a paciente mal-educada que chegou no consultório em que trabalhava, no que comeu de almoço, esse tipo de coisa e logo me fez falar sobre onde fui quando meu bloqueio bateu, falei tudo, vi televisão, ouvi música, fui ao parque e nada da minha inspiração voltar. Quando terminei o café e entreguei a xícara dela a vi andando até a janela da sala e se sentando lá, o sol batendo contra sua pele negra e o cabelo num estilo afro muito bem armado estavam maravilhosos. Eu parei por alguns segundos enquanto a via observando a rua segurando sua xícara com as duas mãos, deixei a minha xícara de café sobre o balcão e corri para meu ateliê para pegar meu caderno de rabiscos, e comecei a desenha-la. Quando terminei voltei para o ateliê e comecei a passar o desenho dela para uma tela. Ouvi um barulho de algo caindo e era o caderno, estava tão distraído desenhando na tela que não vi quando caiu, ele estava aberto no desenho da flor solitária que vi no parque. Decidi adiciona-la na pintura, deixando a mesma flor solitária num vaso perto da janela onde minha namorada estava sentada no desenho.
–Está incrível! –Eu senti o toque quente da mão dela no meu ombro, a pintura estava colorida agora. Sua pele negra brilhando com a luz do sol que entrava pela janela, mas em vez de observar a rua ela observava a flor solitária do lado dela.
–Obrigado… –Ela sorriu para mim e beijou meu rosto, passou os braços pelo meus ombros e ficamos ali admirando a pintura pronta. Tinha ficado lindo, finalmente aqueles milhares de rabiscos se transformaram numa linda tela.