Frio. Eu sentia frio mesmo usando um casaco grosso, ainda sentia frio. Esfreguei minhas mãos tentando aquece-las e as botei novamente nos bolsos do casaco. As ruas estavam frias mesmo com aquele grande número de pessoas ao meu redor, tudo parecia tão frio hoje… As pessoas, o vento, o ambiente… Tudo estava frio. Depois de uma longa caminhada cheguei em casa, joguei minha bolsa num canto e tirei o casaco ligando o aquecedor em seguida. Meu cachorro me encarou, se levantou e quando me viu sentando no sofá veio até mim e se deitou aos meus pés.
–Olá Hades, estou em casa… –Sim, eu dei o nome do Deus do submundo grego pro meu cachorro. Afaguei o grosso pelo negro, ele era um pastor belga de dois anos, meu companheiro de solidão. Ouvi meu celular tocando, peguei ele em cima da mesa de centro e atendi. -Alô?
–Ei, o que ta fazendo agora? –Eu conhecia a voz, era um amigo meu, David.
–Apreciando o calor dos pelos do Hades, por quê?
–Primeiro: ainda não entendo como deu esse nome pra ele; Segundo: Eu tô perto da sua casa, vou dar uma passada ai.
–Se me trouxer meu frappuccino, será bem-vindo. –Ele riu ao fundo e logo desligou, sinal que estava realmente perto. Após uns quinze minutos ouvi a campainha e Hades foi correndo para a porta, sentando de frente para ela esperando que eu a abra e deixe a visita entrar.
–Oi Hades. –David tocou a cabeça dele e me entregou um copo de frappuccino com meu nome.
–Hum, obrigada. –Andamos até o sofá e assim que sentamos ele me fez uma pergunta.
–Ainda sente aquele frio esquisito? –Ele sabia do que eu falava, uma sensação estranha de frio que não passava.
–Um pouco… Hoje senti mais do que o normal… –Toquei as costas de Hades com os pés para aquece-los. –Passa mais quando eu tô com o Hades.
–Vai ver que é o fogo do submundo de onde ele vem que te esquenta. –Ele fazia graça com a minha cara, bufei para ele e me acomodei melhor no sofá.
Ficamos conversando por um tempo, David pediu para passar a noite aqui em casa, como sempre fazia as quartas. Eu gostava quando ele vinha, principalmente por que eu podia fazer a maquiagem dele. Ah sim, David é uma Drag Queen e eu amava ir aos shows dele. Jantar por conta dele, quando deu a hora dele se produzir, eu fui ajuda-lo, ser maquiadora profissional é bom e foi assim que conheci David. Ele precisou de uma maquiadora no dia do show e eu fui chamada por recomendação de outra drag. E assim nasceu uma linda amizade.
Hoje eu não ia para o show do David, quero dizer, pro show da Merlin. Se despediu de mim e foi embora quando o uber dele chegou, eu sentei novamente no sofá e dessa vez Hades subiu e deitou sobre meu colo. Senti um leve calor passar por mim, era agradável e Hades ficava quieto enquanto eu acariciava sua cabeça.
Dia seguinte, David voltou para aqui em casa, estava animado como sempre. Sentamos no sofá e conversamos sobre ele finalmente conseguir abrir o salão de maquiagem dele e que ele queria que eu fosse uma das maquiadoras de lá, ver a alegria do Davi me deixava feliz, de repente senti um leve calor passar por mim. Eu peguei a mão de David e ele ficou me encarando por alguns segundos e de repente olhou para minhas mãos.
–Suas mãos estão quentes… Está tudo bem? –Eu dei um sorriso gentil para ele, David entendeu o que eu queria dizer. –Não ta mais sentindo aquele frio?
–Não sinto… –David sorriu para mim e me abraçou. Tocou meu rosto e senti o leve calor passar por mim de novo. –Eu me sinto feliz, é estranho…
–Antes não se sentia feliz?
–Não muito, acho que era mais pelo fato dos meus pais não curtirem eu ser maquiadora em vez de médica ou advogada…
–O que importa é você fazer algo que te faça feliz, não importa o que seja. Ser maquiadora te faz feliz, então que seja.
Hades veio até mim e encostou a cabeça na minha perna, fiz um carinho e voltei meu olhar para David. Ele estava certo, eu precisava fazer o que me deixava feliz. Era bom saber que não iria sentir mais aquele frio.