Tentativa

Eu olhei para o quarto, varias coisas espalhadas pelo chão… Todas lembranças suas… Eu tinha acabado de voltar de um funeral, estava trancada no quarto, meus pais estavam na sala conversando sobre algo que eu não fazia questão alguma de saber… Isso não me importava, nada importava além de você… Por que você foi embora? Por que tinha que justamente atravessar a rua naquela hora? Meus pensamentos começaram a tomar conta de mim, me deitei no chão em posição fetal e chorei abraçada aos meus joelhos.

Acordei no dia seguinte deitada na minha cama, ou melhor, nossa cama. Sai do quarto fui para o banheiro e sentei no balcão da cozinha como costumava fazer. Minha mãe apareceu e falou comigo, eu não ouvi o que ela disse, ela pareceu suspirar e foi fazer o café da manhã. Meu pai apareceu junto com meu irmão e todos me ofereceram comida, porém eu não queria comer nada… Eu me sentia tão vazia… Sentei no sofá e fiquei vendo a televisão ligada, passei os canais e achei aquele programa que você adorava assistir, abracei meus joelhos e chorei novamente. O dia basicamente foi assim, vendo coisas que você gostava e chorando por causa das lembranças suas. Seus pais vieram aqui e levaram suas coisas, sobraram algumas que eu fiz questão de esconder, pois não queria ficar sem nada seu… Voltei para meu quarto e sentei sobre a cama onde chorei novamente…

Meus dias foram assim, não sei quanto tempo se passou, não tinha mais noção de que horas eram, eu apenas dormia quando meu corpo se entregava a exaustão. Algumas vezes sonhava com você, outras vezes não lembro dos sonhos que tive… Mas um dia eu acordei, eu não sentia nada… Nem tristeza, raiva, solidão, felicidade… Nada. Olhei para o espelho do banheiro, minhas olheiras estavam gigantes, meu cabelo parecia seco e sem vida, assim como eu e minha pele também estava feia… 

–Quando que eu fiquei assim?  –Fiquei analisando aquele ser no espelho, aquilo era mesmo eu?  –Eu pareço um lixo…

Lavei o rosto, escovei os dentes e troquei de roupa, encontrei a cozinha vazia e sentei no balcão como eu sempre fazia, minha mãe chegou e me deu bom dia…

–Bom dia filha.  –Ela foi fazer o café, eu fiquei vendo a cara de abatida dela, assim como a do meu pai e do meu irmão. Por que será que eles estão assim?  –Vai querer comer algo filha?

Não falaram muito comigo, pois estavam apenas observando o que eu fazia, resolvi abrir a boca e pergunta quanto tempo fazia que eles estavam ali comigo e meu irmão disse que fazia uns cinco meses… Terminei de comer e em vez de ir para a televisão da sala, fui para o quarto. Sentei na cama e comecei a pensar, cinco meses que tirei eles de casa? Por isso minha mãe parecia tão abatida e meu pai também… Eu me senti péssima por isso e chorei baixinho, então notei que esse era o primeiro momento que não chorei por poder você e sim por fazer quem eu amava sofrer… Fui no banheiro e peguei alguns produtos para cabelo e fui atrás da minha mãe na sala.

–Mãe?  –Todos os três se viraram para mim.  –Pode me ajudar a hidratar meu cabelo?

–Claro meu amor!  –Ela veio sorrindo animada, deixei ela passar o creme no meu cabelo e tudo mais, decidi conversar com meu pai sobre o que passava no jornal da tarde. Perguntei ao meu irmão se ele não queria ir jogar video game comigo um pouco e ele aceitou.

Ninguém perguntou o por que dessa mudança súbita minha de comportamento, reuni todos os três sala e fiquei na frente da televisão… Tinha algo que eu queria falar para eles…

–Me desculpem… Eu fiz você pararem com suas vidas, por que eu achava que não ia conseguir suportar a perda do Yuri… Sinto muito por isso… 

–Não precisa se desculpar Natália, você estava de luto…  –Meu pai começou a falar, mas eu levantei a mão sinalizando para ele esperar eu terminar.

–Preciso sim… Se vocês não gostavam de me ver desse jeito, imagina o Yuri… Eu vou tentar não chorar tanto a perda dele, não garanto conseguir, mas eu preciso tentar… Afinal, Yuri gostava quando eu ria e não chorava… Eu preciso fazer uma tentativa… Uma nova tentativa de ser feliz do jeito que ele queria que eu fosse…

Meus pais e meu irmão não falaram nada, apenas vieram até mim e me abraçaram. Pareciam orgulhosos, eu sei que você não deve estar gostando de me ver chorando desse jeito Yuri, mas eu prometo começar a trabalhar meu ser para tentar ser feliz novamente. Eu preciso fazer isso, só assim eu vou honrar sua memoria… 

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.